Recusa

Sugestões para Professores

Recusar algo a alguém envolve, naturalmente, a linguagem, mas também a cultura de uma comunidade e aquilo que é considerado aceitável — ou não — dizer em determinadas circunstâncias. Nem todas as comunidades formulam ou utilizam recusas do mesmo modo. Em inglês, os falantes consideram que avançar com uma justificação é uma forma adequada de recusar, ao passo que os falantes polacos se preocupam mais com a possível reação adversa do interlocutor e, por isso, avançam com mais pedidos de desculpa e com recusas mais extensas. Os falantes chineses não devem aceitar um convite ou uma oferta de forma imediata, sendo esperado que recusem várias vezes antes de aceitar. Trata-se, neste caso, de uma recusa ritual, e quem faz a oferta ou o convite insiste repetidamente até que a pessoa a/o aceite. Em outras culturas, contudo, a recusa de um convite ou de uma oferta é definitiva, e não se espera que o interlocutor insista, pois essa insistência pode ser sentida como inadequada ou invasiva. Como se vê, a recusa pode ser um ato ameaçador, que pode ter consequências negativas na relação entre as pessoas. Por esta razão, e para poder comunicar de forma adequada numa língua estrangeira, não basta dominar a gramática dessa língua; é necessário ter também algum conhecimento pragmático sobre os usos linguísticos adequados a cada contexto.

Para auxiliar os docentes a didatizar este conteúdo, eis algumas sugestões de didatização:

  1. Tomando como ponto de partida uma imagem ou uma cena de um filme, o professor pode pôr os alunos a pensar naquilo que diriam na sua própria língua/cultura.
    • Quem recusa o quê a quem?
    • Que relação têm estas pessoas?
    • O que diriam na vossa língua?
    • É normal usar uma justificação quando se recusa?
    • É aceitável dizer simplesmente ‘não’?
  1. Para o nível A1/A2– trabalhar recusas com estruturas breves e simples, como pedidos de desculpa e agradecimentos. Por exemplo:
    • -Qures vir alomçar comigo?
    • -Desculpa, mas não posso.

    • -Não queres um bombom?
    • -Obrigada, mas não me apetece.

    • -Podes emprestar-me uma caneta?
    • -Lamento, mas não tenho.
  1. Para o nível B1/B2 – trabalhar recusas com justificações e apresentação de alternativas. Por exemplo:
    • -Qures vir tomar um café comigo?
    • -Obrigado, mas não posso porque tenho agora uma consulta médica.

    • -Mãe, pode ajudar-me com o trabalho de casa?
    • -Eu não posso ajudar-te, mas a mana pode.

    • -Vem comigo às compras? Está tudo em saldos!
    • -Desculpa, não é possível porque tenho de acabar um trabalho. Pode ser no fim de semana?
  1. Para o nível C1/C2
    1. trabalhar a recusa com outras estruturas: expressão de um desejo; promessa de aceitação futura; crítica velada, por exemplo:
      • - João, estou a contar consigo hoje à noite, na festa da empresa.
      • - Chefe, gostava muito, mas não posso. Prometi à minha mãe ir com ela ao teatro. Da próxima vez, não faltarei.

      • - Podes voltar amanhã de manhã e vamos os dois à praia?
      • - Quem me dera, mas tenho uma reunião de manhã. Se eu soubesse, não a tinha marcado. Prometo que vamos à tarde, ok?

      • - Joana, vou casar em setembro e venho convidar-te para o meu casamento.
      • - Que bom, amiga! Que notícia fantástica! Mas eu não vou poder estar presente no teu casamento, lamento. Já tenho as férias marcadas para esse mês e vou ao Havai. Desculpa. Se eu tivesse sabido...
    2. trabalhar a recusa expressa através das outras estruturas e sem explicitar a fórmula
      • - Não quer um chazinho com uma fatia de bolo de chocolate?
      • - Agradeço muito, mas estou de dieta.

      • - Olha, vem jantar lá a casa, hoje à noite.
      • - Obrigada, mas já tenho um compromisso. Fica para a próxima, prometo.
  1. Trabalhar com diferentes tipos de contextos, fazendo sentir aos alunos que:
    1. quanto maior for a distância (social e hierárquica) entre os falantes, mais necessidade há de produzir uma recusa mais extensa (com mais estratégias):
      • - Filipe, houve um problema numa das máquinas da fábrica e vamos ter de fazer horas extraordinárias. Será que pode adiar as suas férias?
      • - Dr. Ribeiro, eu compreendo o seu problema e gostava muito de o ajudar, mas não vai ser possível, desculpe. Eu tenho tudo marcado num hotel, no Algarve. A minha família já lá está à minha espera. Não pode pedir o adiamento ao Afonso?
    2. quanto maior for a gravidade da situação gerada pela recusa, mais necessidade há de produzir uma recusa mais extensa (com mais estratégias):
      • - Querido, espero que não te tenhas esquecido. A minha mãe faz 75 anos no próximo domingo. Vamos passar o dia com ela, ok?
      • - Uhm...! Esqueci-me completamente! Desculpa, amor, mas eu vou ser o guarda-redes na final do campeonato de futebol de salão do bairro. E não posso faltar! Devias ter-me lembrado. Gostaria mesmo muito de passar o dia com ela, mas não vai ser possível. Não se pode adiar a festa de aniversário para o próximo fim de semana?