Ameaça

O que é uma ameaça?

Na pragmática, a ameaça é um ato de fala através do qual o falante indica que uma consequência negativa poderá ocorrer caso o interlocutor não realize (ou realize) determinada ação.

Trata-se de um ato de fala com forte potencial de imposição, uma vez que procura influenciar diretamente o comportamento do interlocutor através da referência a possíveis consequências desfavoráveis.

Exemplo: "Se não entregares o trabalho, vais reprovar."

Função comunicativa da ameaça

  • pressionar o interlocutor a agir
  • impor comportamentos
  • alertar para consequências negativas
  • exercer autoridade ou controlo

A ameaça pode aproximar-se de outros atos de fala, como o aviso ou o conselho, distinguindo-se sobretudo pelo grau de imposição e pela intenção do falante.

Estrutura de uma ameaça

Uma ameaça inclui geralmente:

  • condição (explícita ou implícita)
  • consequência negativa

Exemplo (1):

- Se não estudares, condição
vais reprovar. consequência negativa
- Se continuares assim, haverá consequências. ameaça implícita

Formas linguísticas usadas em ameaças

Estruturas condicionais

São a forma mais comum de expressar ameaças.

  • "Se não fizeres isso, vais ter problemas."
  • "Se chegares atrasado, não entras."
Ameaças diretas

Em alguns contextos, a consequência é expressa de forma explícita.

  • "Vais arrepender-te."
  • "Terás penalização."
Ameaças indiretas

Podem ser formuladas de forma mais vaga ou implícita.

  • "Convém rever isso."
  • "Pode haver consequências."

Ameaças formais e informais

Ameaças informais

Em contextos informais, as ameaças tendem a ser mais diretas e explícitas.

Exemplos (2):

  • "Se não vais agora, ficas sem sair."
  • "Vais ver o que te acontece."
Ameaças formais

Em contextos institucionais, as ameaças são frequentemente mitigadas e formuladas de forma mais impessoal.

Exemplos (3):

  • "O não cumprimento implicará penalizações."
  • "O incumprimento poderá resultar em sanções."

Estratégias de mitigação

Devido ao seu carácter potencialmente agressivo, as ameaças são muitas vezes suavizadas para reduzir o impacto na interação.

  • uso de linguagem impessoal
  • recurso a formas condicionais
  • eliminação do agente (ex.: "haverá consequências")

Dimensão pragmática e relação com a face

A ameaça é considerada um ato de fala que ameaça diretamente a face do interlocutor, isto é, a sua imagem social.

Por esse motivo, em contextos formais ou interculturais, tende a ser evitada ou reformulada como aviso ou recomendação.

Ameaças em diferentes culturas

A aceitabilidade das ameaças varia significativamente entre culturas. Em algumas, formas diretas podem ser comuns em contextos de autoridade, enquanto noutras são consideradas inadequadas ou agressivas.

Em contextos académicos internacionais, é preferível utilizar formas mitigadas, evitando expressões demasiado diretas.

Dificuldades comuns dos aprendentes
  • dificuldade em distinguir ameaça de aviso
  • uso excessivamente direto
  • interpretação literal de formas indiretas

Exemplos de diálogos

Diálogo 1 — contexto informal

Amigo - Se não estudas, vais chumbar.

Aluno - Vou estudar hoje.

Diálogo 2 — contexto académico

Professor - O não cumprimento do prazo implicará penalização.

Aluno - Compreendido.


Atividades

  1. Distinga entre aviso e ameaça, justificando a sua resposta:
    1. Se não tiveres cuidado, vais cair.
    2. Se não entregares o trabalho, vais reprovar.
  2. Analise o grau de imposição presente no enunciado:

    - O incumprimento do prazo implicará penalização.

    Explique de que forma a linguagem utilizada contribui para tornar a ameaça mais ou menos direta.

  3. Explique o efeito pragmático da seguinte formulação:

    - Pode haver consequências.

  4. Compare as duas formulações e identifique diferenças pragmáticas:
    • - Vais reprovar.
    • - O não cumprimento poderá resultar em reprovação.
  5. Reformule o enunciado de modo a reduzir a sua força ameaçadora:

    - Se não fizeres isso, vais ter problemas.