A Pragmática

- O que é?

É uma disciplina linguística (tal como a Morfologia ou a Sintaxe) que estuda o significado de palavras, frases ou discursos em situações concretas de comunicação; por outras palavras, o seu objeto de estudo é o uso da linguagem em contexto.

- Que fenómeno estuda?


A. A déixis

Há uma forte ligação entre a língua e os diversos contextos em que ela é usada. Então, é compreensível que as línguas tenham um pequeno conjunto de expressões (eu, tu, vocês, aqui, aí, esse, ontem, agora, etc.) que permitem traduzir por palavras (codificar) elementos do contexto:

  • - a pessoa que fala - eu
  • - a(s) pessoa(s) com quem se fala - tu, vocês
  • - O espaço em que se encontra a pessoa que fala - aqui
  • - O espaço em que se encontra a(s) pessoa(s) com quem se fala - esse, aí
  • - O tempo em que se encontra a pessoa que fala - agora

Estas expressões, chamadas deíticas (do grego ‘dêixis’) estão aptas a referir qualquer falante, qualquer interlocutor, qualquer espaço e tempo em que decorra qualquer interação. Podem mudar os interlocutores, o espaço e o tempo, ou seja, pode mudar o contexto situacional, mas estas expressões poderão continuar a ser usadas. Para conseguir interpretá-las, no entanto, é necessário ter acesso a esse contexto. Veja-se o que acontece quando encontramos um bilhete manuscrito, no chão do elevador do nosso prédio, que diz o seguinte:
- Amanhã, espero por ti aqui.
Sem acesso ao contexto – quem escreveu o bilhete, a quem, em que dia, em que lugar – não conseguiremos interpretar essa mensagem. Para mostrar a importância da dêixis, alguns investigadores dizem que mais de 90% dos nossos discursos contêm expressões deíticas.

B. Os atos de fala

Quando abrimos uma janela, descascamos uma maçã ou damos um aperto de mão a alguém, realizamos ações. As palavras e as frases também nos permitem realizar uma grande variedade de ações sociais, em diferentes contextos.

Comecemos com um exemplo simples:

– O senhor é condenado a cinco anos de prisão.


Este discurso, produzido por um juiz no fim de uma audiência, tem efeitos sociais, pois determina uma transformação na vida do senhor.

Juiz a condenar um arguido

Mas não é necessário ter poderes especiais para, através de palavras, transformar a realidade. Qualquer pessoa pode dizer:

  • - Prometo que volto amanhã.
  • - Agradeço a tua ajuda.

e também realiza duas ações sociais (uma promessa e um agradecimento) que podem, até, ter efeitos sobre a vida do interlocutor. Há uma grande variedade de atos que é possível realizar através da linguagem, em contextos distintos: censurar alguém, pedir perdão, dar uma ordem, fazer um elogio, uma sugestão, um aviso, uma ameaça ou uma queixa, entre muitas outras possibilidades. Estas ações sociais que são realizadas verbalmente numa determinada situação constituem um dos tópicos de investigação da Pragmática: os atos de fala.

C. O significado implícito

Imaginemos agora este contexto:
(1)

  • Funcionário - Chefe, posso ir de férias na próxima semana?
  • Chefe - Agora estamos com muito trabalho na empresa!
Chefe e funcionário no escritório

O funcionário faz um pedido ao chefe, e usa uma estrutura interrogativa. O chefe pode responder sim ou não, mas decide dar uma resposta diferente, e diz que, neste momento, a empresa tem muito trabalho.
Que significado tem a resposta do chefe nesta situação? O que é que ele quer dizer? O funcionário pode ir de férias ou não?

Agora, imaginemos um outro cenário:

Um jornalista da televisão vem fazer uma reportagem sobre a empresa e pergunta ao chefe:
(2)

  • Jornalista - Neste momento, como é que está a correr o trabalho?
  • Chefe - Agora estamos com muito trabalho na empresa!

A resposta do chefe é exatamente igual à resposta que ele deu ao funcionário. Mas esta resposta tem o mesmo significado que tem no contexto anterior? Qual é a diferença? A resposta é igual, mas o contexto comunicativo é diferente. Este é um dos aspetos estudados pela Pragmática. Ela investiga não apenas o significado literal do que é dito, mas também o significado implícito (ou pragmático), ou seja, aquilo que os falantes não dizem de forma explícita e clara, mas comunicam indiretamente e que os interlocutores têm de descobrir, apoiando-se no contexto, em conhecimento do mundo e fazendo as chamadas inferências [como no exemplo (1)].

D. A Cortesia

Agora, analisemos um outro caso:
(3)

  • Marido – Querida, vamos ao cinema hoje à noite?
  • Mulher - a) – Não.
  • Mulher - b) – Estou muito cansada, desculpa. Podemos ir antes no fim de semana?

Percebe-se facilmente que as duas possíveis respostas da mulher comunicam a mesma intenção, ou seja, ambas recusam a proposta do marido. No entanto, apenas a segunda conseguirá manter uma boa relação entre o casal, uma vez que a primeira resposta é muito indelicada e até rude.
A cortesia é um fenómeno social e reflete-se em atitudes, gestos, mas também em palavras, que mostram o nosso respeito e a nossa consideração pelo outro. Este princípio que regula o nosso comportamento em sociedade é muito variável, em função da cultura e/ou da comunidade em que vivemos. Aquilo que é considerado normal nalgumas comunidades pode ser considerado indelicado noutras. Por isso, compreende-se que há certas comunidades em que o discurso deve ser mais objetivo e direto – essa é a norma – ao passo que noutras, os falantes são mais indiretos, porque estão preocupados em não ferir os sentimentos do outro. As estratégias linguísticas usadas pelos falantes para mostrarem cortesia (os pedidos de desculpa e as justificações, por exemplo, como acontece em (5b.)), também são analisadas pela Pragmática.

Estes são alguns dos principais tópicos estudados pela Pragmática. Percebe-se que todos estes fenómenos (deíticos, atos de fala, significados indiretos e estratégias de cortesia ) articulam a língua, os diferentes tipos de contexto em que ela é usada e as intenções dos falantes. E, muitas vezes, o significado das nossas mensagens é muito mais rico e complexo do que parece, pois os falantes vão procurar informação extra ao conhecimento que partilham com os outros falantes e ao seu conhecimento do mundo e nem sempre é preciso dizer tudo de forma explícita.

Esta área de investigação é especialmente importante para os aprendentes de uma língua estrangeira.
Esses aprendentes precisam de conhecer formas linguísticas dessa nova língua, mas também precisam de saber adequar essas formas aos vários contextos em que vão usar a língua. A pessoa com quem vão falar, a sua idade, a sua profissão, a relação social que têm com ela, a situação mais formal ou menos formal em que vão encontrar-se com ela, etc. são fatores determinantes para as escolhas linguísticas que vão fazer. Uma mensagem pode estar gramaticalmente correta e, no entanto, não ser adequada a um contexto específico. Em suma, o conhecimento linguístico e o conhecimento das convenções sociais que regem a atividade linguística numa determinada comunidade são ambos importantes para o aprendente.
O processo de aprendizagem destes dois tipos de conhecimento e os fatores que afetam essa aprendizagem são os tópicos de investigação da Pragmática da Interlíngua, uma área que cruza a Pragmática com a área de Aquisição de Línguas Segundas.